“Me revirando, achei as ultimas palavras de Ana Maria.
“você não pode
simplesmente sumir”,
ela disse. Caligrafia tremula, parecia ansiar pelo que viria a seguir. Ou não.
Alguns dias antes, ela falava bastante de um garoto.
Pareciam amigos ou até mais que isso.
Talvez fossem namorados. Minha garota parecia feliz.
Registrava com detalhes os momentos que passavam juntos. Até aquele dia.
Chegou em casa cambaleante, trazendo uma garrafa de uísque.
Tirou a roupa as pressas, correu ao banheiro, vomitou no chão.
Voltou, se jogou na cama e chorou por duas horas. E então se levantou.
Rabiscou uma frase em uma de minhas páginas.
Pulou o vomito, tomou um banho, vestiu seu melhor vestido.
Abriu a janela, tirou os moveis do caminho, correu e se jogou.
Oitavo andar. Nunca voltou. Nem ela nem ninguém.
Não vieram limpar o banheiro, recolher as roupas ou colocar os móveis no lugar.
Não lavaram as xícaras ou retiraram a garrafa da cama.
Não buscaram os móveis. Não vieram ao menos para saber o que aconteceu.
Ana Maria morreu, eu sei. Mas o pior não é morrer e sim ser esquecida.
E ao que parece, ela foi.”
— O caderno secreto de Ana Maria